Uma realidade distante dos grandes centros


Quando a pesquisa foge dos grandes centros


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por Maíra Gouveia, designer e pesquisadora da Questtonó

500 quilômetros separam a capital Cuiabá de Sapezal, cidade do interior do Mato Grosso, próxima de Rondônia e também da Bolívia. São 222 quilômetros até o fim da rodovia MT235, que termina em Comodoro, última cidade antes da fronteira. Em meio a tudo isso, uma paisagem que intercala monoculturas de algodão, soja e milho e os territórios Pareci e Nambiquara, este último visitado pelo antropólogo Levi-Strauss em sua temporada no Brasil nos anos 30.

No meio disso tudo, nós. E, lógico, o design.

No segundo semestre de 2018 tive a oportunidade de participar de um grande projeto na Questtonó, que tinha como desafio entender a relação entre pessoas cuja renda ia até 4 salários mínimos com meios de pagamento e propor novas soluções. Mas um detalhe mudava tudo: tínhamos que entender usuários que nem sempre estão nos briefings; aqueles do Brasil Profundo, que não estão na região metropolitana de São Paulo nem em grandes capitais, mas no interior do nosso país.

As oito cidades que visitamos durante o projeto.

Chegar nesses lugares já era um grande desafio, que só crescia em tamanho conforme íamos nos deparando com a falta de estrutura nas pequenas cidades que visitaríamos durante a pesquisa de campo, entre as quais Sapezal (MT), Piquerobi (SP), Sobrado (PB) e Luzimangues (TO). Mas nada poderia nos preparar para essa imersão em um Brasil que muitos brasileiros sequer imaginam que existe.

O Brasil Profundo, distante da realidade dos grandes centros, chega até as pessoas de maneira truncada, estereotipada e mal-interpretada. Viver e trabalhar em São Paulo ou em outras grandes capitais faz com que o nosso conhecimento e impressão sobre o próprio país seja enviesado — muitas vezes por pura ignorância. Dizem que quem mora em São Paulo não mora no Brasil — assim como quem mora em Nova Iorque não mora nos Estados Unidos. Isso é algo a se pensar: quando praticamos o design, quando propomos soluções, com quem estamos falando? Muitas vezes, com paulistanos — ou cariocas, ou recifenses, e geralmente dentro de um contexto urbano contemporâneo. Será que vale a pena falar de inovação fora desses lugares?

Chegar a Sapezal foi difícil.

Chegamos às 5 da manhã na rodoviária de Cuiabá e embarcamos em um ônibus sem ar condicionado ou banheiro, torcendo para que dali a 10 horas estivéssemos em nossa parada final. A sorte era que estávamos em agosto, auge do período seco no centro-oeste, e a estrada esburacada não era um lamaçal. O problema era o calor de 41 graus do lado de fora — que se revelou como uma lenta tortura dentro do ônibus fechado e sacolejante, que levantava poeira vermelha em um caminho marcado por grandes extensões de vazio. Faltando 6 horas para o fim da nossa viagem, acordei de sobressalto e percebi que não tinha mais ninguém no ônibus. Sem sinal no celular e sem água para beber, achei melhor dormir de novo.

Logo na entrada da cidade nos deparamos com campos de monocultura da algodão, principal atividade econômica da região. Fotos: Maíra Gouveia

Quando a gente chega em um lugar como esse, tão diferente da nossa realidade, o primeiro momento é de surpresa. Logo ficou claro que a rotina ali era bem demarcada, ditada pelo ritmo de trabalho nas grandes fazendas que cercam a cidade a perder de vista. Esse foi um grande norte que guiou nossos achados de pesquisa. Ao mesmo tempo que fomos surpreendidos por Sapezal, Sapezal também se surpreendeu com a gente.

Logo na rodoviária fomos abordados por pessoas que queriam insistentemente saber o que estávamos fazendo ali. Nosso motorista, Toninho, encostou o carro e já foi logo perguntando: mas como é que vocês vieram parar aqui? No hotel, de novo: por que vocês estão aqui?

O que estávamos fazendo ali, e em outras partes do Brasil, era o exercício de ouvir o outro, no maior sentido da expressão. Em cada visita às casas das pessoas, em cada grupo, em cada papo na praça debaixo da sombra de uma árvore, nós usamos todas as nossas habilidades para conversar com as pessoas sobre assuntos nos quais elas muito provavelmente nunca tinham pensado a respeito.

As soluções propostas só foram possíveis porque percebemos a importância de entender a vida e o contexto dos usuários — seus medos, sonhos e culpas, pequenos detalhes que nos mostravam o tempo todo que estávamos falando com pessoas reais. Em meio a muita desconfiança e timidez, nosso objetivo final era mostrar que tudo o que era dito ali era valioso. E, principalmente, que todo mundo deveria se sentir responsável pela construção de uma experiência melhor — para si mesmo e para o resto da cidade.

Grupo de moradores de Sapezal.

O tamanho do nosso desafio — e do que a gente fez — só fez sentido algum tempo depois. Foram 8 cidades e quase 800 pessoas entrevistadas, com histórias inacreditáveis, tristes e felizes, mas principalmente únicas. Conhecer um pouquinho cada uma dessas pessoas nos motivou a querer entregar a melhor resposta. A pesquisa, quando bem feita, é um trabalho de empatia — o seu problema é o nosso problema. Nós, humildes desbravadores do Brasil Profundo, tínhamos uma tarefa ainda mais importante — sermos porta-vozes de pessoas que até então jamais tinham sido ouvidas. E essa é uma responsabilidade gigante.

Então, como perguntei antes, será que vale a pena falar de inovação em lugares como esses? A resposta é muito óbvia: lógico que sim. A inovação está dentro de todos. Independente de onde estejam, as pessoas são usuárias de produtos e serviços que muitas vezes foram pensados por quem está dentro de contextos urbanos, e não compartilham do mesmo do universo referencial.

Criar experiências com significado depende de entender como diferentes usuários percebem valor,

seja de um produto, de um serviço ou de uma marca. Para isso é necessário contemplar diferentes pontos de vista. Sem fazer isso, continuaremos desenhando sistemas que estão muito aquém do seu real potencial de engajamento e uso.

Nossa missão como pesquisadores, estrategistas e designers é dar forma aos desejos e anseios — seja de alguém em Nova Iorque, seja de um morador em um assentamento em Sobrado. Para orquestrar o caos, cabe a nós analisá-lo de peito aberto. Dar um passo atrás, esquecer as hipóteses e simplesmente ouvir.

Na volta para Cuiabá, o ônibus tinha ar condicionado. Tinha banheiro, e tinha parada para comer no meio da viagem. Era como se eu estivesse atravessando um portal imaginário rumo ao que me era familiar — mas com a diferença de que agora eu sabia o que existia do outro lado. Ser pesquisador é antes de tudo ser humano — e falar com os outros humanos. O design só tangibiliza coisas muito maiores — e nos ajuda a entender que, para transformar, precisamos estar abertos a sermos também transformados.