O “novo normal”: os encontros virtuais


Transformações em tempos de pandemia


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por Barão Di Sarno, sócio-diretor da Questtonó

O Skype surgiu há quase duas décadas e, naquela época, todo mundo imaginou que os encontros virtuais estariam muito mais inseridos no nosso cotidiano do que de fato acabou acontecendo.

Corta para 2020. O lockdown em todo o mundo obrigou que o trabalho de home office e o uso das ferramentas digitais de comunicação se tornasse o “novo normal”.

Estamos entrando na terceira semana de confinamento por aqui, e foram inúmeras as reuniões de que participei por videoconferência. Isso não quer dizer, no entanto, que a ferramenta está 100% inserida no nosso dia a dia.

Presenciei uma série de confusões online. Confusões essas que já não acontecem em outras plataformas, como Facebook, WhatsApp ou Instagram. E apesar de a usabilidade de apps e sites de videoconferência serem muito mais simples do que as de mídias sociais, o seu uso não está totalmente disseminado entre as pessoas.

Arrisco a dizer que a lentidão da consolidação dos encontros virtuais se deve ao fato de que seu principal concorrente existe desde que o homem é homem: o papo tête-à-tête. Por força do hábito, afastamos a possibilidade dos encontros virtuais que, muitas vezes, poderiam ser mais vantajosos. Quantas reuniões poderiam ser calls?

Tenho acompanhado muitos relatos de pessoas surpresas com o grau de sucesso que estão obtendo com as reuniões virtuais desde o início da quarentena.

Na nossa empresa, estamos realizando até mesmo workshops, algo que seria impensável há poucas semanas. O resultado tem sido surpreendentemente positivo. A adesão é grande, existe empatia entre os participantes e mantemos o nível de produtividade.

Reuniões virtuais reduzem os deslocamentos. E pensar nos impactos da diminuição de viagens, seja em carros, aviões ou transporte público, é só um começo. A natureza agradece.

A telepresença vai dar um salto enorme após a nossa experiência de confinamento. E isso não vai desvalorizar o nosso encontre tête-à-tête. Pelo contrário. Cada vez mais, vamos enxergar o nosso tempo como algo muito precioso. E vamos refinar as nossas decisões do que entendemos por tempo de qualidade. Ou seja, vamos optar conscientemente pelos nossos encontros presenciais na medida em que entendemos que a nossa presença física é indispensável.

Enquanto isso, a telepresença passará a ser uma escolha real em nosso cotidiano. Com isso, ganhamos todos, pois essas ferramentas nos ajudam a termos mais liberdade para usufruirmos do nosso tempo.

Tenho também como expectativa que o uso massivo dessas plataformas poderá acelerar o seu desenvolvimento. Enquanto as mídias sociais construíram uma nova forma de nos relacionarmos, permitindo que a gente esteja conectado com o resto do mundo e facilitando que esse momento de conexão se adapte às nossas rotinas cada vez mais multitarefas, as videoconferências ou reuniões virtuais simulam o mesmo formato do encontro offline, só que por meio de uma tela. É esperado que tenhamos uma resistência em substituir os encontros presenciais por opções à distância.

Na minha opinião, as plataformas mais populares ainda são muito estáticas. Por exemplo, será que, em breve, vamos conseguir reproduzir a sensação do “olho no olho”, em referência à empatia e ao elo de confiança que estabelecemos em nossos encontros não virtuais?

Algumas mudanças simples na interface destes programas já poderiam fazer uma diferença enorme. Enxergar as imagens dos participantes na horizontal, por exemplo, me parece muito mais agradável do que na vertical, pois se assemelha a forma como nós direcionamos o olhar quando estamos em volta de uma mesa, por exemplo. Certamente, com VR e AR, estes encontros vão se tornar muito melhores e, com sorte, uma das consequências desse momento de confinamento será a aceleração desse desenvolvimento.

O futuro do trabalho será remoto?

O home office ainda é visto por muitas empresas como uma opção alternativa a ser usada apenas quando a presença física se torna inviável. Mas faz dias que assistimos ao mundo viver um trabalho remoto forçado em escala global.

Não há dúvidas de que muitas empresas e profissionais vão acabar dando um salto de aprendizado nesta prática. Digo isso porque este é o momento ideal para diagnosticarmos com mais precisão as situações em que o home office se mostra vantajoso ou problemático.

Entre os benefícios, tenho escutado que a redução das interrupções dentro do ambiente de trabalho aumenta o nosso foco, pois nos permite escolher a hora em que vamos trocar com os colegas, sem que estes possam nos interromper a qualquer momento. No entanto, essa vantagem pode ser totalmente anulada em situações onde o ambiente domiciliar pode ser um gerador de interferências ainda maior. Casa, filhos, companheiros, e por aí vai…

Mas essa conversa não para por aqui. Com o trabalho remoto fazendo cada vez mais parte de nossas carreiras, já consigo pensar em outras transformações em curso, como a arquitetura das nossas casas, as novas dinâmicas do ambiente doméstico, os acordos entre os adultos para dar conta de trabalhar e cuidar das questões do lar sem que a dupla jornada seja exclusiva das mulheres são alguns deles.

Talvez esta seja uma grande oportunidade para que a gente aprenda a conciliar os nossos diferentes tipos de trabalhos diários, sejam aqueles em que somos remunerados ou aquele relativos a nossa vida doméstica.

Talvez essa seja uma enorme oportunidade para avançarmos na igualdade de gêneros. Talvez também seja uma oportunidade de flexibilizar as nossas jornadas, adequando os nossos compromissos profissionais ao tempo e à necessidade de cada um, sem o impacto ambiental, financeiro e psicológico que precisamos atravessar diariamente, a hora do rush nas grandes capitais, por exemplo.

Coloco sempre um “talvez” no início de cada frase pois acredito que cabe a cada um de nós, enquanto humanidade, aproveitarmos essa crise para evoluir. De certo, não seremos mais os mesmos. Fico na torcida para que sejamos melhores.