Como o design enxerga o mundo em 2050?


Congresso internacional discute o papel do design para o futuro

Comportamento
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O diretor de Relações Institucionais da Questtonó, Cadu Scheliga, participou em fevereiro do Congresso IFI, realizado pela Federação Internacional de Designers e Arquitetos na cidade de Dubai.

O Congresso acontece a cada dois anos e reúne profissionais de todo o mundo. Nesta edição, o tema explorado foi Design 2050 – Tecnologia, Design e Educação. O evento é feito em parceria com a APID (Associação Profissional de Designers de Interiores).

 

por Cadu Scheliga, diretor de Relações Institucionais da Questtonó

A tecnologia é um aspecto crucial da inovação, mas também apresenta desafios crescentes para os métodos de criação e também para medir os impactos globais. Ao mesmo tempo em que a tecnologia promove maior conectividade e acesso ao conhecimento, ela traz consigo desigualdades e outros efeitos sociais, como tornar certas profissões obsoletas, impactando no desemprego.

Ao propor o exercício de futurismo de onde estaremos no ano de 2050, o Congresso IFI trouxe à tona a necessidade urgente de reflexão sobre o mundo em que habitamos e aquele que queremos habitar. Com a velocidade exponencial com a qual a tecnologia cresce, não é errado afirmar que os próximos 30 anos valerão por um século.

TECNOLOGIA COMO RESPOSTA. MAS QUAL É A PERGUNTA?

No primeiro painel do evento, Ashley Hall, Ph.D., professor de Design Innovation na The Royal College of Art (Reino Unido) apresentou diversas aplicações tecnológicas que estão prontas para lançamento no mercado, demonstrando que a ficção científica se tornou realidade científica. Dentre os inúmeros exemplos trazidos por Ashley, muitos deles não foram criados para solucionar algo relevante ou algum problema existente, levando a refletir sobre como estamos usando os recursos tecnológicos disponíveis.

Para ilustrar como o design expande seu alcance para novas áreas estratégicas e explora tecnologias emergentes complexas, Ashley apresentou dois casos de aplicação da tecnologia para a inovação: o uso de inteligência artificial para conectar as diversas localidades da Belt and Road Initiative, o projeto de recriar rotas comerciais baseadas na antiga rota da seda, além do futuro da aviação em colaboração com a British Airways.

Responder aos desafios que surgem da interseção entre inovação e humanidade abrirá o caminho para o futuro do design. Ashley encerrou sua apresentação retomando a pergunta lançada pelo arquiteto e designer britânico Cedric Price em 1966: “Tecnologia é a resposta, mas qual seria a pergunta?”.

Em seguida, participaram do painel Arturo Dell’Acqua Bellavitis (Politecnico di Milano – Itália), Paul Tange (Tange Associates – Japão) e Susan Szenasy (Metropolis Magazine – EUA).

Algumas das provocações propostas para a audiência e para os panelistas foram:

Estamos certos em colocar o ser humano no centro das soluções, já que não estamos sozinhos no planeta? 

Quais deveriam ser nossas reais preocupações no desenvolvimento de um projeto, no contexto de uma realidade complexa? Como o design pode nos ajudar a lidar com o futuro?

DESIGN LOCAL OU GLOBAL?

No segundo painel, Arturo Dell’Acqua, professor de desenho industrial do Politecnico de Milão apresentou o tema: o Design Global para a descoberta da Genius Loci (alma do lugar). Partindo do ponto que a globalização tem possibilitado a migração de jovens talentos do design para atuação em mercados mais dinâmicos, ele abordou os efeitos sociais e econômicos desse fluxo e o impacto do esvaziamento das habilidades do design regional.

Arturo relatou que, em resposta a esse fenômeno, as universidades estão cada vez mais orientadas a desenvolver currículos internacionais que forneçam aos alunos ferramentas para uso no mercado global. As escolas de alto nível estão indo além do ensino tradicional de design para incorporar grandes temas como economia, gestão e sustentabilidade, como parte de uma prática profissional mais ampla. Assim, os designers estão evoluindo do simples projeto para uma entrega do serviço relacionado ao design (design as a service).

A pergunta que fica no ar é se essa abordagem global do design não terá o efeito de uma padronização, destruindo a identidade local, ou a alma do lugar. Para debater o assunto, participaram os painelistas Rosanne Somerson, presidente da Rhode Island School of Design (EUA) e Woody Yao, diretor da Zaha Hadid Design (Reino Unido).

ENSINO DE DESIGN INTEGRA PROBLEMAS COMPLEXOS

No terceiro painel, Rosanne Somerson, da RISD, apresentou o tema Projetando para a Complexidade, abordando como a educação sobre o design está preparando as próximas gerações como agentes de mudança para um mundo cada vez mais complexo.

Levando em consideração que as indústrias e os mercados estão se reformulando e as culturas são mais globais, é necessário uma atuação integrada de campos do conhecimento e disciplinas. A inovação está decorrendo da construção interdisciplinar do conhecimento, da colaboração e da cocriação.

Neste ambiente, a disciplina do design vem demonstrando ser o agente de integração e coordenação de maior sucesso das diversas áreas. Assim, para Rosanne, cabe ao ensino do design desenvolver os profissionais para serem agentes da construção de um mundo melhor.

Os painéis foram moderados pelo brasileiro Daniel Joppert da Associação Objeto Brasil.

No segundo dia, o arquiteto indiano Ravi Kumar apresentou uma série de projetos na Índia, liderados por ele, de edifícios de interesse social e com forte componente de sustentabilidade, enquanto a designer baseada no Barein Sonia Ashoor apresentou um painel sobre a influência da arte e cultura islâmica no design e arquitetura.

DUBAI: CENÁRIO DE INOVAÇÃO E TECNOLOGIA

Palco do evento, a cidade icônica do século XXI se coloca como cenário perfeito para as discussões do futuro do design e de seu papel no mundo. Construída como uma cidade além dos padrões, Dubai é um laboratório vivo para aplicação de novas tecnologias e inovação, devido às condições severas de meio ambiente e escassez de recursos naturais vitais.

A cidade, que faz parte dos Emirados Árabes Unidos, é um exemplo onde a tecnologia e o design moldam a experiência humana, adequando o ambiente para a criação de uma terra de oportunidades.

Dubai simboliza o futuro, com seus canais artificiais, seus canteiros verdes e floridos, seus enormes arranha-céus, como o gigante e fenomenal Burj Khalifa e suas ilhas artificiais, demonstrando a genialidade humana e nossa capacidade de moldar a realidade.

A cidade e o próprio Emirado são, sobretudo, o resultado de uma visão, construída com liderança, perseverança, design e engenharia.


Sobre o Congresso IFI

O Congresso IFI busca identificar e debater desafios da sociedade ligados a design e arquitetura, explorando o potencial dessas disciplinas para promover impacto positivo.

Ele acontece a cada dois anos e é realizado pela International Federation of Interior Architects and Designers (IFI), reunindo líderes globais para compartilhar conhecimento, ideias e novidades que afetam e moldam o mundo.

A Assembleia Geral do Congresso reuniu 15 associações do mundo inteiro, representadas por seus delegados, incluindo a brasileira ABD – Associação Brasileira de Designers de Interiores. Foram eleitos os membros do conselho executivo e empossada presidente a nigeriana Titi Ogufere para o termo 2020-2021. Na ocasião, o diretor de Relações Institucionais da Questtonó, Cadu Scheliga, foi confirmado como presidente eleito que irá tomar posse em 2022 para um mandato de dois anos à frente do IFI.